sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Retropicando.

Ontem, dia 31 de agosto - uma data bastante específica e que se tornou significativa pra mim, de certa forma - foi especial assistir a "Retrópica", uma peça de dança da artista Mari Paula. Me senti identificada e um tanto quanto representada nessa personagem que se entrega, se ganha, se salva, se faz e se banca - sozinha. Nos últimos dias percebi o quão importante são essas miudezas, da vida, da arte, de tudo. Enquanto bailarina penso nos detalhes do movimento, da técnica para a realização de sequências coreográficas no palco. Enquanto artista pesquisadora talvez sejam mais significativos os detalhes da produção que vão dando forma à conceitos e ideias. E na vida sinto que os detalhes garantem a realização de qualquer coisa...
A Téssera Companhia de Dança teve o prazer de receber a artista para uma oficina em que nos conduziu por uma pequena amostra do que foi o caminho em que se fez sua pesquisa e sua arte. Um olhar sobre Brasil, brasilidades, danças, corpos, contaminações e (des)esteriotipação - talvez. 
Ao assistir a peça muitas coisas foram melhor compreendidas. Numa casa (Selvática) em cima da lareira, ela segurava ovos nas mãos enluvadas, parecendo mais uma parte da decoração. Vai se diluindo em sua saia de sacolas pretas, se retirando e deixando escorrer. Quando fazer comida torna-se um rebolar, uma dança contando como vive essa mulher, e de sua força e coragem ao usar um facão vem uma outra dança, que não deixa de ser sua, apesar das diferenças e das visualidades, das sensualidades que lhe compõe. E daquele artigo que discorre e escorre também de sua boca como para dentro num prato de comida, num copo de bebida e num cigarro de tabaco, está a verdade do que somos, humanos em estado de escolhas, de vida, ver e viver. 
Ao termino da peça, pronta para sair, "montada" em um tropicalismo, em um Ney Matogrosso, levando consigo a força e coragem já vistas no início, leva o facão, leva o batom, bem como sua sensualidade e feminilidade. Foi como um empodaramento de que muitos falam e eu não havia sentido ainda. Vontade de sair cantando e dançando junto, de me aproximar dessas ideias, de me atualizar, reconfigurar, retropicalizar!
Obrigada Mari Paula.