A Téssera apresenta sua nova obra "Aquela que é" com estreia da nova coreógrafa da casa Juliana Virtuoso no dia 29 de novembro. Para essa montagem eu tive algumas inspirações a mais, pois, o balé trata do feminino e de algumas questões com as quais me relaciono no meu próprio cotidiano e trabalho individual de pesquisa, enquanto filosofia. Portanto, sinto-me cada vez mais interessada a cada nova informação sobre as cenas que a coreógrafa vai compartilhando. Todas essas cenas tem uma importância tremenda e são fortes, inteligentes e questionadoras, reflexivas. Em dias tão difíceis, em que as mulheres voltaram a ser chamadas de 'bruxas' simplesmente porque a força e a grandeza de seu movimento incomoda, é valioso falarmos sobre a importância do feminino em harmonia com o masculino (e a importância dessa harmonia), falarmos de igualdade, falarmos do que acontece hoje com a desumanização do mundo e de uma volta à natureza, a terra, a mãe. E no palco, nos descabelamos em todos os sentidos para isso se torno perceptível e reflectivo, no sentido literal do descabelar, no sentido figurativo em desespero, no sentido físico de um balé com uma longa duração em que nos movemos e nos relacionamos com essas questões a cada troca sutil do ritmo da música. Somos 'aquelas que se descabelam, pelo movimento, pela filosofia, pelo que acreditamos' (a personagem), como aquelas que queimaram seus sutiãs, aquelas que morreram queimadas, na fábrica ou na fogueira, marcos da história de um movimento mas que também são marcos na história do mundo.Não há tempo para respirar. Na verdade, fisicamente tem sim, mas quando percebo que entro em cena desde a primeira cena e não volto para a coxia, nem para respirar nem para tomar água ou algo do tipo (arrumar cabelo e maquiagem nem pensar), percebo a importância também do meu trabalho. As dificuldades na verdade são desafios que instigam a cada vez mais doar-me a esse trabalho.
Chegando a reta final, última semana de ensaios no estúdio, além do nervosismo e ansiedade para estar no palco na próxima semana existe também uma necessidade de organizar o pensamento de dança e personagem. Trabalhamos com emoção, o que torna o movimento mais vivo e significativo. Cada gesto compõe a narrativa de maneira que torna-se tão importante a intenção quanto o movimento e o virtuosismo que se aplica, fazer aula e manter o corpo em forma é sim uma preocupação. Enquanto bailarina acredito que a aula de técnica seja importante para a preparação desse corpo que permanece em cena durante 60 minutos. A aula nos prepara para estar disponível a qualquer coisa que nos seja requisitado, e a limpeza de cada cena traz a certeza e apropriação de cada movimento. E assim, ao apropriar-nos do movimento, estamos prontos a inserir qualidade, intenção e energia necessárias para transmitir ideias, conceitos e a narrativa.
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Entramos no teatro com uma grande energia. Pela manhã o processo de carregar e descarregar no teatro todo o cenário, linóleo cadeiras e material para a montagem do palco é um processo leve e descontraído e aos poucos vai se formando a imagem do ambiente a que nos transportamos para encarnar o personagem. Esse processo é realizado em conjunto, por um trabalho em equipe, da direção com os bailarinos porque não existe uma equipe técnica, o que torna tudo um aprendizado. Desde que entrei na companhia em 2010, participo desse processo e aprendendo todo ano a desenvolver algumas habilidades que são verdadeiras artes, como colocar o linóleo no palco e Passei o dia lembrando dela.algumas coisinhas sobre iluminação, até participar da construção do figurino do balé "Black Dog" no ano anterior e do cenário nesse ano em "Aquela que é". Tive um dia de muitas risadas e muita alegria, porém, com uma saudade e uma falta quase inexplicável. Entre os colegas da companhia, apesar de tentar me aproximar de todos os colegas porque somos um grupo grande e precisamos estar em sintonia para os espetáculos, acabamos sempre nos aproximando mais de uns do que de outros, e uma dessas pessoas hoje não pode mais estar conosco e era aquela que mais sorria e se divertia com todo esse processo e que assim acabava fazendo dele uma das coisas mais felizes de se estar presente junto.

É um dia que passamos muito próximos por bastante tempo, e essa energia esse cuidado um com o outro e aproximação são muito importantes também pro momento de subir no palco. E o que mais me comove nesses momentos, desde os ensaios no estúdio até os momentos mais nervosos na coxia, é a generosidade com que as bailarinas mais experientes da companhia (hoje uma delas é a nossa atual coreógrafa Juliana Virtuoso, com quem tive a honra de dividir o palco e contracenar) nos tratam e nos recebem. Hoje especialmente, é aniversário 'd'aquela que é' (piadinha interna) uma das pessoas, bailarinas, artistas e mestras, mais importantes na minha carreira a quem hoje acredito poder chamar de amiga, Helen de Aguiar. Alguém que a oito anos me recebeu de braços abertos e me ensinou muito com seus olhares, correções e toques sutis de encorajamento, sua generosidade enquanto artista e sua força e energia no palco vão continuar me ensinando e eu quero continuar aprendendo, agradeço por sua parceria e quero desejar-lhe que sempre seja essa força artística e vital em nossas vidas, porque é também uma peça muito importante dessa companhia.
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Essas são mulheres que me influenciam e que me inspiram para a criação dessa personagem.
Na véspera da estreia do espetáculo, é hora dos últimos ajustes, de concentração e cuidado, de estar presente, de ser Téssera.