Essa época do ano, junho ou julho, sempre é época de tensão, ansiedade um pouco de pressão e nervosismo, mas também de dedicação, concentração e gratidão no fim de tudo.
O espetáculo "Black Dog" da Téssera Companhia de Dança se inspira na depressão, um dos males de uma geração, de um século, que lida todos os dias com situações de angustia e ansiedade. Não é fácil participar de uma montagem que em seu processo coreográfico tem também a necessidade de se explorar, para além da interpretação, um conceito tão forte e tão próximo da realidade. Depende de uma entrega e uma confiança sem tamanho, no trabalho, no diretor e coreógrafo, nos colegas.
No ano anterior, 2016, quando a obra foi coreografada, tive a experiência de participar do processo desde seu início em todos os sentidos, inclusive como figurinista, o que hoje, em sua remontagem para a temporada de junho de 2017, faz uma grande diferença, em termos técnicos de coreografia mas também no sentido psicológico, pois a primeira montagem nos cobrou muito já que não há experiência que valha a própria sensação e emoção de quem sofre de Depressão. Trabalhando desde março nessa mesma obra, que já esteve no palco, percebo o quanto amadurece o corpo que dança e o corpo que sofre com o frio, as dores de trabalho e o "peito em frangalhos a cada dia em que não se controla a energia".
Percebi como hoje consigo me afastar da personagem, mesmo que não seja fácil, para me desligar da emoção e da energia que ela cria, como um estado corporal, e voltar para casa e para os meus afazeres cotidianos sem me perturbar. Parece algo obvio e sem tanta importância, porém há uma verdade tão forte relacionada a necessidade de bem-estar do corpo que modifica a relação com a personagem. Antes da obra "Black Dog" ser montada em 2016 eu nunca havia participado de uma montagem com um personagem estruturado que dá (na minha opinião) forma ao conceito, no sentido de que, mesmo que sempre trabalhemos com um personagem, ele tem uma significância maior nessa obra.
Durante o processo de remontagem da obra senti a necessidade de revisitar a pesquisa, teórica e visual (de conceitos e definições até imagens relacionadas ao tema), que foi feita durante a construção da personagem. A minha personagem especificamente está relacionada a um sintoma que identifico como travas, quando você Para e percebe que precisa encontrar outros caminhos e maneiras de seguir, de continuar. Assim, também, com referências verbais do coreógrafo pudemos chegar juntos a uma estrutura coreográfica, de desenho no palco como trajetórias e de signos que dão forma a personagem. E nesse caso estou falando da construção individual do sintoma.
Sempre me pareceu confuso, e no fundo é realmente confuso. Porque entender que o meu personagem não é sozinho, mas que está atrelado a outros sintomas representados por outras bailarinas, e que todos são um único sujeito, levou algum tempo, não foi fácil identificar essa particularidade essencial para o sentido do trabalho. O processo, portanto, neste ano se tornou ainda mais intenso, por ser uma remontagem, uma retomada dos conceitos, das sensações, dos sentimentos que já haviam nos feito companhia por 1 ano inteiro. Ao contrário do que imaginávamos, o processo não foi mais fácil, porque também houveram adaptações, mudanças que nos cobraram mais atenção, mais dedicação, mais concentração. O fato de precisar entrar em sintonia com bailarinos diferentes, pela mudança de elenco que ocorre todos os anos por diferentes motivos, o que já modifica a maneira como se dá esse processo, já intensifica o trabalho, porque trabalhamos na relação, na intimidade.
Nessa temporada que termina hoje, já estive no palco por três noites intensas. Todos os dias nos deparamos com novos desafios. A dança e sua efemeridade, um espetáculo nunca é igual ao outro. Escutei já algumas vezes na minha carreira elogios com relação a uma constância minha no palco (por exemplo, não danço fora da música, faço o mesmo movimento que serve de "deixa" para o colega todos os dias, no mesmo lugar e no mesmo momento), o que me deixa extremamente orgulhosa, mas que me faz pensar sobre o contexto geral da dança. Como a cada dia, mesmo nos ensaios no estúdio, eu não poderia saber como viria o personagem. Algumas vezes, como no ensaio geral no palco (dia 20 de junho), a energia e a emoção foram tão fortes que quase não foi possível controlar. Eu não sofro de depressão, ansiedade ou síndrome do pânico e tive a sensação do meu corpo tremer descontrolado, o peito arfante parecendo não ter ar, o choro que não para e escorre pelo rosto sem permissão e uma ideia no fundo da mente, uma imagem triste de que eu iria permanecer ali deitada no chão sem conseguir me segurar, sozinha. E eu fiquei esperando que alguém viesse me socorrer, simplesmente esperando. A sensação de que eu ficaria esperando e ninguém viria me dilacerava cada vez mais. Em algum lugar eu sabia que devia me controlar pois entraria em cena novamente em poucos minutos, mas não conseguia me acalmar. Para a minha sorte essas sensações foram varridas quando dois colegas me encontraram e me acalmaram, com água, apertos no corpo para reavivá-lo e palavras de segurança. Voltei pro palco terminei o espetáculo e voltei pra casa com a exaustão. Hoje eu sei que posso controlar, deixar a energia fluir, expandir do peito e tomar conta do palco, sem me desesperar e descontrolar.
E todos os dias temos um novo presente. Meu filho, que dançou na minha barriga seu primeiro balé (Coelhos - 2014) se sensibilizou com o espetáculo de sexta-feira (23 de junho) e, ao lhe perguntarem se tinha medo, disse "não estou com medo, só quero chorar". E chorou, disse que não quer mais ver. Senti-me orgulhosa da sensibilidade dele e do meu trabalho. Em outro dia recebi elogios que me dão força para continuar, e em outro vi uma espectadora de pupilas dilatas e mãos frias, com toda a carga recebida na platéia. Pessoas que não conhecemos nos dizem na rua que querem assistir e, mesmo esta sendo a segunda temporada de "Black Dog", as pessoas querem mais. Isso é muito gratificante e restaurador das energias, levando-se em conta a força e o desgaste que o trabalho requer. Eu não trocaria por nada.
Serviço: HOJE 25 de junho de 2017 - último dia!
Téssera Companhia de Dança da UFPR
Black Dog de Rafael Pacheco
No Teatro da Reitoria as 21h
ENTRADA FRANCA
PH: Christian Alves
O espetáculo "Black Dog" da Téssera Companhia de Dança se inspira na depressão, um dos males de uma geração, de um século, que lida todos os dias com situações de angustia e ansiedade. Não é fácil participar de uma montagem que em seu processo coreográfico tem também a necessidade de se explorar, para além da interpretação, um conceito tão forte e tão próximo da realidade. Depende de uma entrega e uma confiança sem tamanho, no trabalho, no diretor e coreógrafo, nos colegas.
Percebi como hoje consigo me afastar da personagem, mesmo que não seja fácil, para me desligar da emoção e da energia que ela cria, como um estado corporal, e voltar para casa e para os meus afazeres cotidianos sem me perturbar. Parece algo obvio e sem tanta importância, porém há uma verdade tão forte relacionada a necessidade de bem-estar do corpo que modifica a relação com a personagem. Antes da obra "Black Dog" ser montada em 2016 eu nunca havia participado de uma montagem com um personagem estruturado que dá (na minha opinião) forma ao conceito, no sentido de que, mesmo que sempre trabalhemos com um personagem, ele tem uma significância maior nessa obra.
Durante o processo de remontagem da obra senti a necessidade de revisitar a pesquisa, teórica e visual (de conceitos e definições até imagens relacionadas ao tema), que foi feita durante a construção da personagem. A minha personagem especificamente está relacionada a um sintoma que identifico como travas, quando você Para e percebe que precisa encontrar outros caminhos e maneiras de seguir, de continuar. Assim, também, com referências verbais do coreógrafo pudemos chegar juntos a uma estrutura coreográfica, de desenho no palco como trajetórias e de signos que dão forma a personagem. E nesse caso estou falando da construção individual do sintoma.
Sempre me pareceu confuso, e no fundo é realmente confuso. Porque entender que o meu personagem não é sozinho, mas que está atrelado a outros sintomas representados por outras bailarinas, e que todos são um único sujeito, levou algum tempo, não foi fácil identificar essa particularidade essencial para o sentido do trabalho. O processo, portanto, neste ano se tornou ainda mais intenso, por ser uma remontagem, uma retomada dos conceitos, das sensações, dos sentimentos que já haviam nos feito companhia por 1 ano inteiro. Ao contrário do que imaginávamos, o processo não foi mais fácil, porque também houveram adaptações, mudanças que nos cobraram mais atenção, mais dedicação, mais concentração. O fato de precisar entrar em sintonia com bailarinos diferentes, pela mudança de elenco que ocorre todos os anos por diferentes motivos, o que já modifica a maneira como se dá esse processo, já intensifica o trabalho, porque trabalhamos na relação, na intimidade.
Nessa temporada que termina hoje, já estive no palco por três noites intensas. Todos os dias nos deparamos com novos desafios. A dança e sua efemeridade, um espetáculo nunca é igual ao outro. Escutei já algumas vezes na minha carreira elogios com relação a uma constância minha no palco (por exemplo, não danço fora da música, faço o mesmo movimento que serve de "deixa" para o colega todos os dias, no mesmo lugar e no mesmo momento), o que me deixa extremamente orgulhosa, mas que me faz pensar sobre o contexto geral da dança. Como a cada dia, mesmo nos ensaios no estúdio, eu não poderia saber como viria o personagem. Algumas vezes, como no ensaio geral no palco (dia 20 de junho), a energia e a emoção foram tão fortes que quase não foi possível controlar. Eu não sofro de depressão, ansiedade ou síndrome do pânico e tive a sensação do meu corpo tremer descontrolado, o peito arfante parecendo não ter ar, o choro que não para e escorre pelo rosto sem permissão e uma ideia no fundo da mente, uma imagem triste de que eu iria permanecer ali deitada no chão sem conseguir me segurar, sozinha. E eu fiquei esperando que alguém viesse me socorrer, simplesmente esperando. A sensação de que eu ficaria esperando e ninguém viria me dilacerava cada vez mais. Em algum lugar eu sabia que devia me controlar pois entraria em cena novamente em poucos minutos, mas não conseguia me acalmar. Para a minha sorte essas sensações foram varridas quando dois colegas me encontraram e me acalmaram, com água, apertos no corpo para reavivá-lo e palavras de segurança. Voltei pro palco terminei o espetáculo e voltei pra casa com a exaustão. Hoje eu sei que posso controlar, deixar a energia fluir, expandir do peito e tomar conta do palco, sem me desesperar e descontrolar.
E todos os dias temos um novo presente. Meu filho, que dançou na minha barriga seu primeiro balé (Coelhos - 2014) se sensibilizou com o espetáculo de sexta-feira (23 de junho) e, ao lhe perguntarem se tinha medo, disse "não estou com medo, só quero chorar". E chorou, disse que não quer mais ver. Senti-me orgulhosa da sensibilidade dele e do meu trabalho. Em outro dia recebi elogios que me dão força para continuar, e em outro vi uma espectadora de pupilas dilatas e mãos frias, com toda a carga recebida na platéia. Pessoas que não conhecemos nos dizem na rua que querem assistir e, mesmo esta sendo a segunda temporada de "Black Dog", as pessoas querem mais. Isso é muito gratificante e restaurador das energias, levando-se em conta a força e o desgaste que o trabalho requer. Eu não trocaria por nada.
Serviço: HOJE 25 de junho de 2017 - último dia!Téssera Companhia de Dança da UFPR
Black Dog de Rafael Pacheco
No Teatro da Reitoria as 21h
ENTRADA FRANCA
PH: Christian Alves

