É preciso entender o que se quer com a dança, o que pode e o que deve ser. Entender intimamente o ser artista, o que é e como se constrói. Será que eu sou?
Nos últimos dois meses, de maio e junho, a Téssera Companhia de Dança esteve em exposição pela comemoração dos seus 35 anos, no MusA (Museu de Artes da UFPR - INTERMEDI(AÇÕES)). E durante esse tempo a companhia realizava performances de segunda a sexta-feira as 16:00 horas, reavivando e revivendo obras que já foram ao palco e, em algumas vezes, testando a nova obra que está sendo coreografada. Pude estar presente e participar das várias partes do processo, desde a pré-produção que consistia em elaborar um catálogo que guiaria os visitantes das exposição, da produção e organização do espaço onde foram expostas as obras por meio de seus cenários, figurinos e objetos de cena mais significativos, até os últimos dias de performances e a desmontagem da exposição.
Descobri que tudo que eu acreditava entender sobre performance se transforma.Talvez por que existam outras possíveis formas de se performar e entender performance. E nesse caso, da Téssera, sem desvincularmos a emoção do processo de criação, sempre presente na cena. Em uma das últimas performances que participei, dia 29 de junho, carregando uma certa responsabilidade, nós utilizamos coreografia e emoção da nova obra, Black Dog. Senti que ultrapassava uma barreira. Nas palavras de uma colega, espectadora nesse dia "atravessou uma porta que já estava aberta mas que eu nunca tinha visto você atravessar". A partir desse momento, satisfeita e orgulhosa de mim mesma, as coisas passaram a mudar e, das várias facetas de um artista, posso me ver assim, tendo essa função tão maravilhosa e tão difícil que é, numa entrega e de maneira tão efêmera poder abrir os horizontes, romper com as caixas escuras, exteriorizar impulsos, enfim, comunicar e discursar sem restrições (além daquelas que realmente nos desenvolvem em dança), por acreditar e amar essa arte.
Quero, com tudo isso, tentar explicar uma inquietação da bailarina, tentar dialogar nesse espaço que é meu. Já a algum tempo tenho escutado com uma certa frequência, pessoas que considero grandes artistas da dança terem um questionamento parecido com o meu sobre esse ser artista. E percebi que muitas pessoas não consideram o bailarino um artista pelo seu papel de reprodutor de discursos alheios (no sentido de que dançam o que o coreógrafo transmite). Eu não enxergo desta maneira.
O bailarino deve ser tão artista quanto o criador, mesmo que não estejamos falando aqui de interpretes-
criadores, figura comum nos papos sobre dança contemporânea. Acredito que, de qualquer maneira, se aceitamos e entendemos que os corpos são diferentes e que pensamos de maneira diferente um do outro, parece-me claro que eu não estou reproduzindo um discurso, mas construindo o meu próprio a partir daquele que me foi apresentado, a cada novo ensaio, espetáculo, performance, e vai se reconfigurando. O que se mostra muito verdadeiro nesse processo de reavivar obras do repertório da companhia no formato de performances quase diárias, num ambiente de museu, dentro da universidade, sendo muitas vezes obras em que o performer não esteve presente durante a montagem coreográfica. E levando-se em consideração que os coreógrafos trabalhem de maneira a utilizar conceitos e emoções como os próprios signos das obras, é possível perceber como os discursos se atualizam no fazer da dança, porque só posso usar minhas próprias emoções para construir a personagem ou me aproximar daqueles conceitos. E por todos esses motivos me considero sim uma artista, hoje muito mais confiante em dizê-lo.
Quero agradecer, como sempre e mais uma vez, essa oportunidade de participar desses processos que me deram a possibilidade de me atualizar enquanto artista, principalmente aos meus mestres, coreógrafos e diretores Rafael Pacheco e Cristiane Wosniak, assim como a todos os colegas da Téssera Companhia de Dança, artistas com quem tenho orgulho de dividir essas experiências dia a dia. E, depois de quase 20 anos de minha carreira, que venham mais exposições comemorativas.
Fotos:
Christian Alves
Dani Durães.



