Observo.
Deitados de olhos fechados, trazendo a atenção para os olhos, percebem o tamanho dele na cavidade do crânio; qual a imagem que se forma em suas pálpebras (?); levam as mãos aos olhos, em repouso; voltam a atenção para o peso dos olhos e dessas imagens que vão se formando, lugar de história, memória da retina; derretem as mãos pelo rosto até encontrar o chão; começam a mover os olhos, em diversas direções; quando há necessidade, levam as mãos aos olhos descansando-os; voltam a mover os olhos fazendo suas cabeças e tronco acompanharem o movimento lentamente na direção escolhida, ainda de olhos fechados; é a partir de então que todo o corpo acompanha esse olhar, mudando suas posições no chão, sem esquecer que os olhos iniciam e coordenam esse movimento que agora deixa de ser apenas lateralizado para envolver todo o corpo continuamente; existe uma autonomia para fazer pausas de descanso; 'como se eu tivesse olhos atrás da cabeça' e são esses olhos que direcionam o movimento, modificando a atenção; aproximando e afastando, encontros inevitáveis; INVERTER UM PADRÃO DE FRONTALIDADE, BUSCANDO OLHOS NO CORPO; a tarefa se complexifica a partir do momento em que se arriscam; o olho se transfere para outro ponto no centro do tronco, os olhos se abrem; e da frente do tronco esse ponto (olho do corpo), se transfere para trás, para as costas, em trânsito através do espaço, aproximando e afastando em maior escala e mais perceptível, com esse olho que tudo quer enxergar, no controle, comandando e direcionando o movimento, é preciso arriscar; construir estratégias de permanência para que algo aconteça.
Estômago ondulante.
De repente descubro a necessidade de externar, botar pra fora, vomitar esse olho; através do toque, sinto e enxergo um oceano, como da profundidade as cores se intensificam, do límpido azul ao mais escuro que me transforma no próprio oceano. Meu corpo em ondas traz a imagem do estômago pela invasão dessa sensação de enjoo, náusea e dor que acompanham o movimento. Esse estômago passa a ser olho e me direciona. O foco transita para o movimento através da dor. As ondas transformam-se em nó, pelo que os líquidos do corpo (humor) precisam transbordar e de ondulante esse movimento vai se quebrando e do centro à periferia, percorre os membros se 'embolando', 'empelotando'. O que era líquido se espessa e sua consistência altera a qualidade desse olhar/olho que move. Buscando mais uma vez inverter as lógicas desse corpo movendo, escorre como que através de uma peneira, o líquido grosso pela coluna que agora quer enxergar e direciona esse olhar/mover. Percebo que esqueci de meu pescoço. E só encontro o olho do meu corpo novamente nele, no pescoço ou na nuca, através do toque. Estímulo que dá noção de volume, de forma e tridimensionalidade. Que corpo é esse que eu movo sem reconhecê-lo como meu? que só reconheço através do outro? que olhar é esse que prende o movimento? que não escorre e não preenche? Se quero enxergar, fecho os olhos e abro o corpo...
Respiro.
Atenta ao peito, atendo ao descontrole e me deixo levar pelo ritmo, pela emoção, pela sensação e sentimento. O corpo vibra, mas não enxerga. Abro os olhos e me contagia o ritmo do coletivo. No centro do corpo bombeia o sangue para a periferia, espirrando, esguichando-o. Agora lembro da cabeça. Parece que vou cair, quero desistir, a musculatura se contrai, se tenciona e clama pelo chão, pela pausa. O silencio. E como em ondas vai tornando o sangue para o centro. Lentamente os olhos transitam do externo para o interno. E de volta. Esse olhar que não é, não está mais só nos olhos, mas também na coluna, nos pés, nas mãos, nos órgãos. Que está atento, que quer ver tudo, que focaliza e desfoca, que direciona, mas se descontrola, se perde e, porém, encontra. Que ondula, quebra, escorre e tonteia. Um olhar que se torna escuta.