domingo, 14 de junho de 2015

Pára Tudo.

Preparava um texto sobre a expectativa de ir ao palco com a sensação de despedida, mais uma vez, de um balé muito importante, pois trata-se de um divisor de águas, um encerramento e conclusão de um ciclo, e abertura de outro. Preparava um texto de agradecimento, pelas amizades, pela cumplicidade, pelo carinho e parcerias, de um grupo de pessoas muito especial, uma companhia de dança sem igual. E preparava um texto sobre sensações, espectativas, emoções, que derepente mudaram completamente. Fui pega desprevenida e modifico meu discurso tranquilo e solene para um com maior preocupação e ansiedade. Explico.
Na última quinta-feira, dia 11 de junho, durante o ensaio “deixei meu braço pra trás” num rolamento, que não deu certo. Rompi os ligamentos da articulação acromio-clavicular, tirando a clavícula um pouquinho do lugar. Na hora a dor foi de ficar branca, mas parecia só que eu tinha torcido alguma coisa, nada de grave. Dei uma parada e voltei logo em seguida, inclusive passando por cima do ombro na sequência. E não senti exatamente dor. O problema é que conforme eu mexia mais o braço começou a formigar e depois amorteceu. Quando o ensaio acabou, graças e meus colegas e, principalmente, ao meu diretor e coreógrafo fui levada ao hospital onde fiz uma radiografia que constatou o que já imaginávamos; 15 dias, no mínimo, de repouso com o braço paradinho para cicatrizar e poder voltar a movimentar e dançar.

Assim que entendi que mesmo não tratando-se de nada tão grave eu precisaria ficar parada por algum tempo e tão próximo da estréia da temporada da Téssera comecei a me preocupar. Não é fácil em nenhuma circunstância para nós bailarinos precisar ficar sem dançar, nem que sejam 3 dias para recuperar de uma gripe (geralmente dançamos com o nariz escorrendo mesmo), imagine 2 semanas e para alguém que a pouco menos de 6 meses teve um bebê, ou seja, nem mesmo da gravidez estou completamente recuperada e por isso cada dia é essencial, no sentido de voltar a forma.
Uma certa agonia começou a invadir meu peito e agradeço a minha colega/professora/amiga bailarina Helen Aguiar que me acompanhou na ida ao hospital por, mesmo sem saber talvez, ter me distraído. Sei que parece um exagero, afinal realmente não é para tanto, mas nesses momentos seu primeiro pensamento, a impressão que dá é que “eu nunca mais vou poder dançar! Aaaaah! Que desespero”. Uma colega até brincou “não é a toa que você trabalha com dança moderna” porque já dramatizei toda a história. Porém fui me acalmando e fui tranquilizada até pelo médico. Vai ficar tudo bem.
Fica voltando da memória as sensações de uma fratura no pé, na época da minha formação, que me fez perder 2 meses de aula, a dificuldade de ficar parada, até porque era no pé, e a sensação ruim de estar perdendo tempo.

Depois que passou o susto o jeito era me acostumar com a situação, certo!? Usando uma tipóia, tento me lembrar de não mover o braço. A hora mais difícil até agora (3º dia de imobilidade) é a “hora do mama” pois somente uma quantidade enorme de almofadas segura meu filho do lado esquerdo, o peso dele no braço da a sensação de que vou tê-lo arrancado. Troquei meu treino de corrida por caminhada e o resto do tempo tento me distrair com a televisão, a internet e meu filho do lado direito. E ainda pesquiso como é me mover sem mover o braço esquerdo, o que chamei de “busca pelo movimento através da imobilidade”. O remédio pra dor não ajuda muito porque precisa ser mais fraco porque ainda amamento meu filho exclusivamente com meu leite. Tenho muita ajuda em casa e isso facillita, com certeza. Acredito sim que vou me recuperar muito bem e rápido. Fica um friozinho na barriga pra saber  se vou poder, conseguir dançar no início de julho. Mas eu confio na minha capacidade, e não dá pra desistir só por causa de um ligamentinho... (brincadeirinha).
Mas quem é que não tem uma história dessa pra contar. A 3 anos de completar 20 de carreira nunca tinha me acontecido, agora já tenho uma fratura e rompimento de ligamento na conta.
E você pode acompanhar esse processo na minha página no Facebook: Bruna Póvoa II
Eu conto se eu vou conseguir ir pro palco, ok!?