Preparava um texto sobre a
expectativa de ir ao palco com a sensação de despedida, mais uma vez, de um
balé muito importante, pois trata-se de um divisor de águas, um encerramento e
conclusão de um ciclo, e abertura de outro. Preparava um texto de agradecimento,
pelas amizades, pela cumplicidade, pelo carinho e parcerias, de um grupo de
pessoas muito especial, uma companhia de dança sem igual. E preparava um texto
sobre sensações, espectativas, emoções, que derepente mudaram completamente.
Fui pega desprevenida e modifico meu discurso tranquilo e solene para um com
maior preocupação e ansiedade. Explico.
Na última quinta-feira, dia
11 de junho, durante o ensaio “deixei meu braço pra trás” num rolamento, que
não deu certo. Rompi os ligamentos da articulação acromio-clavicular, tirando a
clavícula um pouquinho do lugar. Na hora a dor foi de ficar branca, mas parecia
só que eu tinha torcido alguma coisa, nada de grave. Dei uma parada e voltei
logo em seguida, inclusive passando por cima do ombro na sequência. E não senti
exatamente dor. O problema é que conforme eu mexia mais o braço começou a
formigar e depois amorteceu. Quando o ensaio acabou, graças e meus colegas e,
principalmente, ao meu diretor e coreógrafo fui levada ao hospital onde fiz uma
radiografia que constatou o que já imaginávamos; 15 dias, no mínimo, de repouso
com o braço paradinho para cicatrizar e poder voltar a movimentar e dançar.
Assim que entendi que mesmo
não tratando-se de nada tão grave eu precisaria ficar parada por algum tempo e
tão próximo da estréia da temporada da Téssera comecei a me preocupar. Não é
fácil em nenhuma circunstância para nós bailarinos precisar ficar sem dançar,
nem que sejam 3 dias para recuperar de uma gripe (geralmente dançamos com o
nariz escorrendo mesmo), imagine 2 semanas e para alguém que a pouco menos de 6
meses teve um bebê, ou seja, nem mesmo da gravidez estou completamente
recuperada e por isso cada dia é essencial, no sentido de voltar a forma.
Uma certa agonia começou a
invadir meu peito e agradeço a minha colega/professora/amiga bailarina Helen
Aguiar que me acompanhou na ida ao hospital por, mesmo sem saber talvez, ter me
distraído. Sei que parece um exagero, afinal realmente não é para tanto, mas
nesses momentos seu primeiro pensamento, a impressão que dá é que “eu nunca
mais vou poder dançar! Aaaaah! Que desespero”. Uma colega até brincou “não é a
toa que você trabalha com dança moderna” porque já dramatizei toda a história.
Porém fui me acalmando e fui tranquilizada até pelo médico. Vai ficar tudo bem.
Fica voltando da memória as
sensações de uma fratura no pé, na época da minha formação, que me fez perder 2
meses de aula, a dificuldade de ficar parada, até porque era no pé, e a
sensação ruim de estar perdendo tempo.
Depois que passou o susto o
jeito era me acostumar com a situação, certo!? Usando uma tipóia, tento me
lembrar de não mover o braço. A hora mais difícil até agora (3º dia de
imobilidade) é a “hora do mama” pois somente uma quantidade enorme de almofadas
segura meu filho do lado esquerdo, o peso dele no braço da a sensação de que
vou tê-lo arrancado. Troquei meu treino de corrida por caminhada e o resto do
tempo tento me distrair com a televisão, a internet e meu filho do lado
direito. E ainda pesquiso como é me mover sem mover o braço esquerdo, o que
chamei de “busca pelo movimento através da imobilidade”. O remédio pra dor não
ajuda muito porque precisa ser mais fraco porque ainda amamento meu filho
exclusivamente com meu leite. Tenho muita ajuda em casa e isso facillita, com
certeza. Acredito sim que vou me recuperar muito bem e rápido. Fica um
friozinho na barriga pra saber se vou
poder, conseguir dançar no início de julho. Mas eu confio na minha capacidade,
e não dá pra desistir só por causa de um ligamentinho... (brincadeirinha).
Mas quem é que não tem uma
história dessa pra contar. A 3 anos de completar 20 de carreira nunca tinha me
acontecido, agora já tenho uma fratura e rompimento de ligamento na conta.
E você pode acompanhar esse
processo na minha página no Facebook: Bruna Póvoa II
Eu conto se eu vou conseguir ir pro
palco, ok!?

