Certa vez perguntaram-me se eu acreditava que minha dança mudaria após a experiência pela qual passei a pouco tempo, de gravidez. Não tenho certeza do que respondi, mas sei que não foi explicativo. Acredito sim numa mudança grande. Afinal o processo de 9 meses que estica a pele, aumenta o peso e transforma o modo de pensar e perceber a vida e o mundo, permanece muito presente na memória. E é importante ressaltar aqui que essa experiência não termina tão logo, há ainda o processo de recuperação. Aliás dois processos confusos, quando você está se acostumando com um, ele muda drasticamente de forma e é preciso dar início ao outro.

As últimas semanas em que trabalhei sentia meu corpo pesado, o equilíbrio quase impossível e parecia frágil demais para tudo. Cada movimento era uma preocupação porque não havia mais nenhuma certeza, não era possível basear-me em conhecimentos teóricos prévios ou pela sensação da musculatura pois não havia conhecimentos ou sensações. E tudo foi ficando mais difícil e mais difícil.
Essa sensação de fragilidade passou logo depois do parto, é claro, me sentia uma fortaleza, orgulhosa da minha força e persistência, quase como uma super mulher.
Logo nas primeiras semanas o meu corpo ainda era pesado. Mas assim que foi possível começar a me movimentar novamente as coisas mudaram completamente. A flacidez é muito presente, porém a vitalidade e falta daquela fragilidade que não deixava que eu me movimentasse de forma tranquila fez com que eu imediatamente me sentisse confiante, segura e leve, muito leve. É claro que tudo começou muito lentamente e com cuidado, mas minha única preocupação era combater a flacidez e voltar a sentir a musculatura firme e forte. A verdade é que não demorei muito para ficar satisfeita nesse sentido. A alimentação controlada e saudável, para o meu organismo e para a amamentação, foi parte importante desse processo de recuperação e a amamentação por si só fez total diferença. Em alguns meses eu já me sentia preparada para voltar a minha rotina habitual de exercícios. E então, tudo isso aliado ao apoio, ajuda e carinho de todos a minha volta fizeram, acredito eu, um belo serviço.
Essa dança, coreograficamente, no meu trabalho é a mesma. Mas tudo mudou se meu corpo e minha forma de pensar esse corpo mudaram. Antes da gravidez nada disso que estou escrevendo era importante, a sensação do corpo como corpo nem passava pela minha cabeça quando escrevia. Eu via corpo quase como objeto, meu objeto de trabalho, e as sensações eram o meu foco como dança e não o movimento pura e simplesmente. Observo agora o movimento, o corpo e descobri coisas que não imaginava, só ouvia falar e não encontrava em mim. As minhas dificuldades, que eu carregava desde muito antes da gravidez, parecem simples de se resolver e o pouco esforço que emprego no dia a dia de exercícios que me fortalecem não só corporalmente mas mentalmente também, bastam para que eu alcance objetivos antigos e quase esquecidos e a satisfação que eu desejava como bailarina, de ter um corpo mais pronto e atento a ele mesmo, deixou de ser utópico. Minha dança mudou, é mais leve e especialmente possível de se experimentar, saio da zona de conforto com maior facilidade, me arrisco e me surpreendo a cada dia. Essa mesma dança, coreograficamente falando, é ainda mais prazerosa de se dançar, esse movimento que o meu corpo reconhece com facilidade é agora simbólico, a minha história. Hoje de volta ao trabalho e com espetáculos sendo ensaiados, os hábitos modificados e com um lindo menininho me fazendo feliz todos os dias e me encorajando com aquele sorriso banguela, uma risada encantadora, um olhar apaixonado e um abraço desajeitado e babado, todo dia me esforçar mais e mais ficou fácil!