segunda-feira, 25 de julho de 2016

Pra que férias afinal...

Todo ano nessa época tenho dificuldades em manter-me calma, quieta e descansando apesar de sempre ficar doente, quando o corpo relaxa por não ter mais responsabilidades por algum tempo, tudo meio psicológico e estranho na minha opinião, mas compreensível e administrável. O fato é que eu ainda não consigo gostar de férias, sempre procuro alguma coisa para fazer, yoga, exercícios em casa, corrida, meditação. Mas ainda assim tem dia que é um desperdício. E esse ano tudo piora. A Téssera Companhia de Dança não teve sua habitual temporada de meio de ano, em que subimos ao palco do Teatro da Reitoria e também não pudemos comparecer ao 26º Festival de Inverno da UFPR em Antonina, em que subimos ao palco do Theatro Municipal da cidade. Focados no trabalho que tivemos com a exposição comemorativa dos 35 anos da companhia Intermediações no MusA - Museu de Artes da UFPR e, também com a nova coreografia e produção do espetáculo, foi necessário cancelar a temporada e não foi possível comparecer ao evento. Tivemos portanto uma pausa para descanso que termina na próxima segunda, início do mês.
Com esse sentimento de falta que sempre me ocorre e com esses agravantes, precisava me embrenhar em alguma atividade que preenchesse esse vazio. Nesse caso minhas pesquisas e produções. 
SPLASH CYCLONES estará abrindo o Improviso de Dança e Música na Casa Hoffmann dia 07 de agosto, junto a outras duas Danças Performativas (https://www.facebook.com/events/303284420018124/). "Um balanço ondulante respinga no chão pontos luminosos de um desenho espiralado do corpo líquido, instável e inacabado que se vê" traduz a poesia da investigação que tem como ponto de partida a coluna vertebral e sua maleabilidade deslocadas do corpo, através da pesquisa dos discursos em que se criam possibilidades de enxergar, externar e encontrar uma possível poética. A pesquisa de movimento que vem construindo uma célula quase codificada, construiu também essa frase, já abordada aqui em outra oportunidade - seu primeiro procedimento em mostra pública. Depois de muitas pesquisas teóricas com relação a esse corpo e como vem presentificando a arte numa outra forma, que pode dar suporte a dança, a moda entendida aqui como fato social e tudo aquilo que abrange o corpo, como o adorno.
Quase como uma escultura essa pele deslocada do corpo torna-se palpável e extremamente importante para a poética do trabalho. Essa pele é uma estrutura de arame torcido, criada como símbolo do objeto de pesquisa inicial (a coluna vertebral e a conexão cabeça-calda -  Padrão Neurológico Básico estudado), ligada a um colant. Através da leitura de antigos registros do processo, selecionei as palavras que passam a construir e definir a narrativa e possível personagem, conforme também vão me atravessando as imagens e textos referenciais do trabalho, bem como conceituam a prática corporal e as ideias que vão surgindo nessa relação da arte com a moda. 'Respingos', 'luminosos' e 'espirais' (ou 'ciclones') - SPLASH CYCLONES espalha pelo espaço discursos através de suas trajetórias espiraladas, enquanto reverbera na pele deslocada a liquidez de um corpo real. É a maneira como se manifestam questões contemporâneas de transgreções do corpo no meu próprio modo, de pensar e dançar.
Pensar o meu corpo de maneira descolada, colocar em pauta questões como as transgressões e a tecnologia e a definição do que pode ser arte hoje, são anseios para esse trabalho que permanece em desenvolvimento. Preparo as estruturas para uma possível mostra desse processo e não tenho pretensão nenhuma de me fazer entender, nem de explicar nenhuma dessas questões, nem mesmo acredito que minha célula esteja pronta para abordar tais questões. Mas a prática da cena é também uma aula, aproximar a pesquisa do público, e diferentes públicos, enriquecem a pesquisa em outro âmbito. Mas acredito que pode ser perceptível já que essas ideias me ocorrem na prática, no momento de dançar e não de descrever a ação.
Por fim, acho que minhas férias tornaram-se um pouco mais produtivas esse ano, nesse sentido. Acho que me fez bem a compreensão do que é o ser artista...