sábado, 1 de novembro de 2014

Aprendiz de Coreógrafa - Parte II

Quando fazer uma sequência depende de muita gente, na minha experiência, geralmente não dá certo. Mas tive uma surpresa em sala de aula este ano quando percebi que era ainda mais fácil trabalhar com alguns colegas. Um de nós iniciava e outro completava o movimento e juntos todos trabalhamos para concluir as pequenas tarefas que transformaram uma sequência coreográfica em coreografia, com conceito, ideias de figurino, cenário e música. Transformando, assim a minha ideia de trabalho em equipe. O diálogo também foi parte muito importante no processo para que juntos chegássemos a uma ideia ou um conceito quando nos foi pedido. A verdade é que a cada aula um de nós seria o "coreógrafo da vez" e teríamos que mexer, modificar ou acrescentar coisas a essa sequência. Portanto considerei muito importante as nossas conversas pois nenhum dos coreógrafos fugiu da ideia principal e mantivemos uma unidade. No final, tínhamos um espetáculo. Tanto a nossa equipe, quanto as outras esquipes formadas pelas alunas transformamos as pequenas sequências em boas propostas coreográficas.
Depois disso passamos a nos dedicar a uma segunda etapa de aprendizagem que considero muito mais desafiadora. A ideia era fazer uma coreografia, dueto ou para grupos, para apresentação em uma Mostra. Deveríamos escolher tema, elenco, música, figurinos e teríamos a oportunidade de trabalhar com iluminação pois apresentaríamos os trabalhos no Teatro Experimental Universitário, o TEUNI. A experiência deveria ser completa. Buscamos selecionar portanto nosso elenco e marcamos ensaios, mas o tempo corre e muitas vezes nossos horários não eram compatíveis. Eramos muitos coreógrafos trabalhando ao mesmo tempo, os elencos muitas vezes eram os mesmos e foi preciso também dividir bailarinos além das salas para ensaio. Mas a turma deu um jeito e lá estávamos nós com somente 30 minutos muitas vezes ensaiando no corredor da universidade. 
Escolhi um tema que a muito tempo eu gostaria de retratar numa coreografia e vi a oportunidade de satisfazer uma alegria de criança. "Peter e Wendy" sempre foi um dos meus livros favoritos e desde muito pequena eu tive vontade de dançar como Peter Pan. Inventava coreografias em todas as músicas dos CD's da minha mãe e me lembro de quando imaginei um dueto para a música "João e Maria" de Chico Buarque e Sivuca. Complicado explicar como essa ideia permaneceu guardadinha e só agora veio despertar novamente. Escolhi duas lindas bailarinas para trabalhar e mesmo com pouco tempo elas se dedicaram e foram rápidas em assimilar a ideia e as sequências. Eu tinha tudo na minha cabeça, mas precisei passar para o papel para não me perder. Depois de as sequências aprendidas a coreografia foi tomando forma e nós a colocamos na música.  Também com muito diálogo pude introduzir na coreografia o pouco do conceito que conseguiria passar as bailarinas: e se Peter Pan tivesse crescido? Ele teria ido atrás de Wendy? Teria entendido o que é o amor? E ela teria esperado por ele? Que tipo de mulher crescida ela realmente seria? Com essas poucas perguntas trabalhamos as personagens. Eu queria também colocar cada faceta da atividade do coreógrafo em prática. Portanto, tentei desenvolver não só a coreografia mas o figurino e a iluminação, de acordo com a ideia e o conceito da obra. E até acredito que me saí bem... 
No dia em que fecharíamos a disciplina com a Mostra dos trabalhos eu estava bastante nervosa como se fosse entrar no palco. Tentava me manter calma e pensar em tudo que eu poderia fazer para ajudar e para que fosse o momento especial que todos nós esperávamos. Todos os coreógrafos, com exceção de... eu!, estavam dançando e por isso somente eu pude ver todas as coreografias em cena. Se fosse uma competição eu estaria com muito mais medo. Ótimos projetos se desenvolveram, com clareza, objetividade e beleza das formas, das ideias. Coreografias em que você quer dançar junto, que você canta a música e tem até vontade de chorar (ou isso é porque eu estou grávida). Fiquei encantada e orgulhosa de fazer parte disso, assim como das "minhas bailarinas" que dançaram lindamente e colocaram em prática esse meu sonho.
Sempre fica o sentimento de que poderia ter feito mais, de que poderia ter sido melhor, e depois da Mostra tive várias outras ideias que poderiam ter deixado a coreografia ainda mais bonita. Mas devo agradecer a oportunidade, um aprendizado que cada vez fortalece mais o meu desejo de me tornar um dia uma boa coreógrafa, e o fato de que muita coisa mudou pra mim, a minha forma de ver as coisas se alterou e essa experiência também me ensinou que eu posso criar, eu posso sair da minha zona de conforto, que eu posso me desafiar e tentar mais.
 A todos os professores que nos auxiliaram do Curso de Dança Moderna da UFPR, as "minhas bailarinas" que se dedicaram e enfrentaram o desafio comigo, a minha mãe que confeccionou comigo os figurinos (a partir das minhas ideias birutas), ao fotografo Christian Alves que deixou ainda mais bonita a imagem que eu tinha em mente, às colegas que ajudaram-nos a colocar em prática o espetáculo que se tornou a Mostra dos Trabalhos de Criação Artística dos Alunos do CDM.