No primeiro semestre deste ano infiltrei-me nas aulas da disciplina de Composição Coreográfica ministradas pela professora Cristiane Wosniak no Curso de Dança Moderna da UFPR. Todas as sextas-feiras havia uma tarefa a ser cumprida e algo novo a ser experimentado. E um objetivo final inspirador. Foi um semestre cheio de aprendizados, pois a cada aula descobria que os modos de mover que eu pesquisava se completam e vão sendo unidos para compor uma ideia e uma sequência simbólica (ou não, às vezes).O primeiro resultado destas experiências em sala de aula foi a criação de um solo com referência de um filme sorteado entre os alunos da disciplina, diferentes desafios para cada um. Não imaginei que ficaria tão nervosa ante a perspetiva de mostrar um trabalho meu a colegas e professores. Tudo que imaginei, pensei, criei, pareciam bons e suficientes argumentos pra mim. Até o momento de ficar de frente com a platéia mais importante, meus próprios coreógrafos e professores, e não conseguir lembrar o que havia feito.
Durante o processo pesquisamos notícias que poderiam estar relacionadas ao tema do filme, como o personagem escolhido se movia, qual seu objetivo, e aplicamos à pesquisa de movimentos que geraria a composição final. O filme sorteado para mim foi "Edward mãos de Tesoura" de Tim Burton (muitos murmúrios ao lembrar que o personagem principal é interpretado por Johny Deep, sim todas fazem isso você não é a única). Eu escolhi, é claro, o protagonista. Desenvolvi uma sequência de movimentos próximos a movimentação do próprio ator observada no filme e ainda imaginei meu deslocamento espacial com relação a toda sua trajetória no desenvolvimento da história.
A inocência e ingenuidade do personagem o transformam no que é considerado pela sociedade, criticada no filme, numa aberração e objeto perigoso. Mesma sociedade essa que o tirou do seu "habitat natural", seu esconderijo se apaixonando e depois descartando-o quando não é mais novidade. Uma sociedade contraditória, imagem do 'contemporâneo'. Assustado e indefeso, confuso e apaixonado. Imagem de profundo abandono, ingenuo artista mal interpretado.
Considero que esta apresentação, apesar de meu nervosismo, foi um sucesso. O meu trabalho, assim como o de todos os colegas, foi muito aplaudido e recebeu muitas críticas e boa avaliações. Estava orgulhosa de mim, da minha composição, e não via hora de começar o segundo semestre, o que teríamos que fazer então... muito confiante com o sucesso na hora não considerei todos os fatos.
Acontece que, como em todos os meus 17 anos dançando, sempre me senti muito confortável e bem com a ideia de criar e percebia uma certa facilidade, porque era pra mim mesma. Nunca criei nada para outra pessoa e acredito que este seja o desafio. Mas isto é história para outra postagem...
Imagens Christian Alves.
