Um instante de repouso seria um bálsamo.Eu bem que esperaria até amanhã para voltar a viver,
Se eu soubesse que o inimigo também estivesse dormindo."
Bertold Brecht, quatro versos do poema "Diante de um tronco de árvore abatido que parecia um homem caído na terra".
Como é fácil lembrar aquilo de que você gosta. É como se você nunca tivesse esquecido, mesmo depois de um ano, todos os movimentos, cada detalhe de cada sequência. E a impressão de estar em uma Nova Iork dos anos 40, cheia de suas antenas e seus arranha-céus. Aquela conhecida sensação de instabilidade no momento em que a música começa a tocar, os olhos fixos num ponto a frente e o sentimento de exílio que invade a alma. Dançar mais uma vez o balé "Só em Acapulco", onde o coreógrafo Rafael Pacheco coloca Brecht em cena, é um privilégio, e eu não tenho dúvida de que é um dos meus favoritos.
As estruturas que compõe o cenário foram tiradas do "depósito", montamos todas no estúdio e começamos a trabalhar. Logo no primeiro ensaio houve a tentativa de lembrar o balé inteiro. Algumas sequências foram mais difíceis e outras estavam gravadas no corpo. Fomos nos reposicionando e marcando os lugares vazios, deixados por ex-bailarinas da companhia, as quais o novo elenco irá substituir. Demos início a nossa viagem.
Ver a estrutura do balé pronta em tão pouco tempo torna-o propriedade da companhia, o elenco se sente parte da história, está a vontade e tem compreensão do geral, entra em concordância com facilidade. Buscamos, então, a energia do balé. Porque não basta decorar as sequências e saber a hora de entrar em cena. Procura-se entender como funcionaria a "cabeça do Brecht", o que representam as cenas e tudo o que há nelas. A direção do coreógrafo facilita esse entendimento, as sequências tem suas próprias intensões e enquanto as realizamos ele comenta definições dos sentimentos e sobre a energia que se passa na cena. Todos os motivos pelos quais Brecht está em cena, cada detalhe sobre seus sentimentos que nos afetam e inspiram, mudando a intensão de um mesmo movimento, comunicando variados fatores de sua vida. É o fator interpretativo. E além de termos o Brecht em cena, nos baseamos no seu modo de fazer teatro. Entender como isso se processa e como fazê-lo em dança é mais um desafio.Portanto a volta para Acapulco significa para mim uma comemoração, assim como a versão original de 2011 que comemorava os 30 anos da companhia, foi a primeira inspiração para este blog. O "exílio do sujeito contemporâneo" que fascinou-me e continua a me surpreender com cada descoberta dentro das lembranças. Sinto-me orgulhosa, feliz, afinal... contente.
