![]() |
| Fotografia: ballerina project |
Enquanto artista tudo que é humano, sentimento, emoção, sensação, aquilo que vive dentro da gente, chama minha atenção mais do que qualquer outra coisa. E me chamou a atenção a forma como muitos colegas, principalmente algumas das bailarinas mais experientes da companhia que poderiam nem ter se preocupado ou olhado na minha direção, mas que estavam tentando ajudar-me com relação a um machucado antigo que por vezes me tira o fôlego e não ajuda em nada a dançar. Um simples olhar, um sorriso e um abraço nas coxias, para voltar ao palco com força recobrada. E o valor disso, simples gestos, é muito grande num momento em que tudo o que se pensa é não errar a sequência, não cair no palco, manter a postura... o nervosismo usual.
No início de Fevereiro a primeira coisa boa que me aconteceu foi a volta dos ensaios do grupo folclórico Wisla. Grandes amizades lá dentro e uma paixão pela dança muito grande e pelo modo como é trabalhada lá que não me deixa permanecer por muito tempo distante do grupo. Entrar às quatro da tarde e sair escorrendo suor de dentro do salão às oito da noite, feliz e sentindo passar pelo corpo descargas de energia, a noite não acaba por aí. Depois de todo um final de semana, na segunda-feira posso voltar a secretaria da unidade de dança da UFPR e encontrar também as pessoas certas com quem falar sobre dança e, mesmo sentindo dores no corpo, olhar para aquele lindo e enorme estúdio azul e arriscar alguns "passinhos", ele é inspirador.
E depois de algum tempo começo a perceber que estou voltando mesmo para casa. O primeiro dia de aula da companhia também tem um ritual, ver as luzes acesas do estúdio pelas grandes janelas do prédio histórico da Universidade já dá a sensação de estar em casa novamente, reencontrar as pessoas, entrar no estúdio às seis da tarde e sair de lá às nove com o collants encharcado de suor, mas feliz e se sentindo acolhida, como se não houvesse nada no mundo mais satisfatório, a melhor fatia de bolo de chocolate do mundo, uma lata de coca-cola no calor, um elogio sobre o seu trabalho.
Não estou dizendo que não é bom ter férias, como em qualquer trabalho esse tempo é necessário e importante, só acredito que poderia durar menos.
"Ela não gosta de voltar pra casa, ao menos não antes da meia noite.Não tem medo de estar errada, experimentando até o seu máximo limite.
Você se surpreenderia com o tamanho da sua alegria, não existe prazer maior que o seu em dançar todo o dia.
Mas seus pensamentos estão tomando o caminho errado, posso ver em seus olhos, em sua expressão.
Em meio a tanta insanidade,
Buscando essa tal de liberdade,
Ela não está perdida, ela agora vagueia sozinha por opção."
Bruna Póvoa
