terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Como voltar pra casa.

Parece tempo perdido o período de férias da bailarina. As pessoas ficam dizendo "pára quieta" ou "tenta descansar" e ela tenta, nos dois primeiros dias. Logo já tem aulas marcadas, sai para caminhar, correr, faz alongamento na sala de casa, yôga, pilates, musculação, vai para festas nas noites de sexta-feira e dança a madrugada inteira, e ainda encontra os momentos e lugares mais inusitados para lembrar de sequências de aula ou a coreografia do último balé.
Fotografia: ballerina project
Todas as manhãs de Janeiro, enquanto caminhava no parque sentia falta da música, de todas as pessoas fazendo juntas o mesmo movimento e de como riamos. Pensava em como é importante o exercício que eu fazia ali para não perder tudo que havia conquistado com um ano de trabalho, não é fácil manter a saúde do corpo e da mente como um todo, com tudo pelo que passamos, desgaste físico e emocional. Mas também pensava em como é importante manter a cumplicidade e harmonia entre os bailarinos. Ouvi muito a palavra cumplicidade em diversos contextos e variados momentos nos últimos tempos. Tenho conhecimento de seus significados e fico admirada com a forma vaga com a qual as pessoas a usam. Essa palavra tem tomado conta do meu próprio vocabulário desde o último ano. Tive a oportunidade de sentir na pele o valor do significado de cumplicidade e não há, na minha opinião, nada mais valioso do que companheiros, amigos e verdadeiros seres humanos trabalhando com você. Nesse sentido acredito que eu seja muito sortuda. Algumas situações me mostraram o quanto são valiosos esses companheiros.
Enquanto artista tudo que é humano, sentimento, emoção, sensação, aquilo que vive dentro da gente, chama minha atenção mais do que qualquer outra coisa. E me chamou a atenção a forma como muitos colegas, principalmente algumas das bailarinas mais experientes da companhia que poderiam nem ter se preocupado ou olhado na minha direção, mas que estavam tentando ajudar-me com relação a um machucado antigo que por vezes me tira o fôlego e não ajuda em nada a dançar. Um simples olhar, um sorriso e um abraço nas coxias, para voltar ao palco com força recobrada. E o valor disso, simples gestos, é muito grande num momento em que tudo o que se pensa é não errar a sequência, não cair no palco, manter a postura... o nervosismo usual.
  No início de Fevereiro a primeira coisa boa que me aconteceu foi a volta dos ensaios do grupo folclórico Wisla. Grandes amizades lá dentro e uma paixão pela dança muito grande e pelo modo como é trabalhada lá que não me deixa permanecer por muito tempo distante do grupo. Entrar às quatro da tarde e sair escorrendo suor de dentro do salão às oito da noite, feliz e sentindo passar pelo corpo descargas de energia, a noite não acaba por aí. Depois de todo um final de semana, na segunda-feira posso voltar a secretaria da unidade de dança da UFPR e encontrar também as pessoas certas com quem falar sobre dança e, mesmo sentindo dores no corpo, olhar para aquele lindo e enorme estúdio azul e arriscar alguns "passinhos", ele é inspirador.
E depois de algum tempo começo a perceber que estou voltando mesmo para casa. O primeiro dia de aula da companhia também tem um ritual, ver as luzes acesas do estúdio pelas grandes janelas do prédio histórico da Universidade já dá a sensação de estar em casa novamente, reencontrar as pessoas, entrar no estúdio às seis da tarde e sair de lá às nove com o collants encharcado de suor, mas feliz e se sentindo acolhida, como se não houvesse nada no mundo mais satisfatório, a melhor fatia de bolo de chocolate do mundo, uma lata de coca-cola no calor, um elogio sobre o seu trabalho.
Não estou dizendo que não é bom ter férias, como em qualquer trabalho esse tempo é necessário e importante, só acredito que poderia durar menos.



"Ela não gosta de voltar pra casa, ao menos não antes da meia noite.
Não tem medo de estar errada, experimentando até o seu máximo limite.
Você se surpreenderia com o tamanho da sua alegria, não existe prazer maior que o seu em dançar todo o dia.

Mas seus pensamentos estão tomando o caminho errado, posso ver em seus olhos, em sua expressão.
Em meio a tanta insanidade,
Buscando essa tal de liberdade,
Ela não está perdida, ela agora vagueia sozinha por opção."


Bruna Póvoa