quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Acabaram Coelhos (?)

Durante os últimos meses tive o prazer de participar da montagem do balé “A Téssera vai dançar” (Coelhos) de Rafael Pacheco. Estive presente em todo o processo coregráfico e observei bastante e de perto o processo conceitual e da produção. Meses em que via coelho em tudo que encontrava, por todos os lados para onde olhava e até em sonho. E ainda, meses em que observei com maior atenção aos casos de violência em notícias e histórias contadas, porque de repente saltavam aos olhos as imagens daquilo que tratávamos nos ensaios.
O início do processo coregráfico causou muita espectativa e deixava-me entusiasmada. Houveram muitos dias em que conversei longamente com pessoas, especialmente minha mãe, sobre assuntos relacionados ao conceito e tema do balé, do qual tinha apenas uma noção. Muitas vezes a coreografia não parecia relacionada ao tema de violência, uma sequência aleatória, até que o diretor nos mostrava a intenção, os signos e explicava em partes o conceito. Tudo ia se encaixando, tomando forma e eu ia entendendo os significados de cada cena criada.
Tivemos então uma de nossas primeiras tristezas. Por conta de uma cirurgia uma colega não poderia dançar conosco. É delicado e deixa todo mundo apreensivo. Ninguém tem certeza do que sente. Quando ensaiamos sem a colega e fazemos ajustes no que já havia sido construído as coisas parecem tranquilas, sem problemas. Mas todos sente a falta.
Depois de um tempo comecei a perceber que estava trabalhando um personagem forte, com personalidade e objetivo que poderia estar seguindo um líder ou agindo por prazer. Fui identificando pequenos movimentos que seriam próprios do seu comportamento, da sua forma de pensar e pequenas expressões que identificavam tais pensamentos. A partir do momento em que a coreografia era colocada em sequência de cena, a medida em que o balé passava a ter uma espécie de narrativa, ficava mais fácil dar maior importância para esses detalhes, pois a coreografia já tinha sido codificada e absorvida.
Nesse ponto o rítimo das aulas era acelerado, a rotina já havia mudado e o corpo tornara-se mais resistente e ágil, respondendo com maior facilidade aos movimentos. Me sentia mais forte e cada vez mais impulsionada. Percebi uma facilidade de entendimento que no inicio parecia quase impossível. O corpo e a mente foram se habituando e se transformando.
E enfim vai chegando a ansiedade, mesmo com um mês de antecedência o frio na barriga já é insistente e mexe com o modo como percebo e entendo cada detalhe, inclusive os de produção. Há a novidade da grama que faz parte do cenário, das luvas, do figurino, da máscara e do ‘taco’ de ferro. Adaptar-me não foi fácil, porém, incorporou à minha interpretação o que lhe faltava, o toque final para o personagem.

Na semana de estréia da temporada a companhia parecia nervosa, sem excessões, mas ansiosa para ver as estruturas que também acrescentariam uma dificuldade, mais um detalhe a ser lembrado, nunca havíamos ensaiado com nada parecido e a altura dela era mais um estranho no palco. Entramos no teatro cedo para só conseguir ensaiar tarde da noite. Deveríamos nos acostumar portanto com o tamanho do palco reduzido e a altura das estruturas. Levava tempo para descer e subir nas passarelas e muitos de nós saímos com roxos nas canelas e arranhados nas mãos. Mas saímos sorrindo. Depois que subo no palco sinto-me em casa. O cheiro do teatro, as luzes, a energia, tudo muda, tudo é sempre diferente. Faz uma enorme diferença o apoio dos colegas, estamos atentos as necessidades de palco e uns aos outros. É bastante diferente da sala de aula, onde até então cada um preocupava-se com a sua parte, e pouco tempo para adaptação às novidades. É escuro nas cochias, há estruturas altas por onde devemos caminhar e correr, máscaras entre outros acessórios... Fazemos uma passagem de luz para sabermos nos posicionar, onde nos movimentar. E vai tudo sendo colocado no lugar.
Contudo, estreamos na quarta-feira um balé que, segundo alguns espectadores, tira o folego e as palavras das pessoas, deixando a marca prevista pelo coreógrafo. Satisfeitos voltamos a nos apresentar com o mesmo entusiasmo nos dias seguintes. E mais uma vez o destino impõe um obstáculo. No sábado, geralmente um dos nossos maiores públicos, a chuva não deixou que nos apresentássemos, sem luz no teatro não poderíamos fazer nosso espetáculo. Voltava então para casa com uma sensação ruim de quem não concluíra seu trabalho. E o corpo não relaxou, não conseguia aproveitar o tempo para descansar, tive a impressão de que estava fazendo algo errado. Engraçado porque não era minha culpa... No domingo, então voltava ao teatro para o último espetáculo da temporada. A emoção era forte e não deixava espaço para qualquer outro pensamento. O silêncio de concentração e ao mesmo tempo as risadas das últimas piadas de camarim se misturavam e transformavam aquele ambiente no melhor, que eu conheço, para a realização da nossa arte.
Depois de um mês de férias ainda voltamos aos nossos ensaios para participação do Festival de Inverno da Universidade Federal do Paraná, em Antonina. Com esse espaço de tempo e com a certeza da realização de um bom trabalho durante a temporada, a companhia parecia mais segura. Os poucos ajustes que fizemos com relação a tamanho de palco e a um elenco reduzido novamente, não parecia assustadores ou problemáticos. Mais uma colega por problemas de saúde não pode nos acompanhar no palco, e mais uma vez a companhia se sentia estranha com relação a isso. Mas a presença das colegas durante a viagem e o espetáculo foi tranquilizadora.
Como sempre viajar para Antonina, litoral do nosso estado, é uma alegria. Somos bem recebidos e temos a oportunidade de ver o movimento desse festival que já tem 24 anos de ‘carreira’, onde a Téssera também sempre participou, desde sua primeira edição. Mais uma chegada ao teatro com alegria, piadas, sorrisos, harmonia e muitos abraços nos integrantes da companhia que trabalham no festival como parte da equipe de espetáculos, incluindo nosso chefe, o Pacheco.Fizemos dois espetáculos bem produzidos e organizados, onde nos adaptamos bem e percebi, envolvemos o público num trabalho de qualidade.

Mais uma semana depois e voltamos ao trabalho. Agora estamos focados na produção de um novo espetáculo que terá como coreógrafa Cristiane Wosniak. O processo é completamente diferente, não se assemelha em quase nada com o processo do Pacheco. É interessante participar de coisas tão diferentes, as experiências, mesmo que eu não queira, ficam se comparando na minha mente. O que um faz que outro não faz, e porque? Qual o propósito de diferentes abordagens? São perguntas que eu me faço. E agora mais do  que nunca sou uma observadora. Na semana seguinte a que voltamos de nossos espetáculos em Antonina, tive a mais incrível notícia da minha vida. Estou grávida! E é com essa alegria que venho participando do processo do novo balé da Téssera Companhia de Dança. 

Fotografias: Christian Alves