Durante os últimos meses
tive o prazer de participar da montagem do balé “A Téssera vai dançar”
(Coelhos) de Rafael Pacheco. Estive presente em todo o processo coregráfico e
observei bastante e de perto o processo conceitual e da produção. Meses em que
via coelho em tudo que encontrava, por todos os lados para onde olhava e até em
sonho. E ainda, meses em que observei com maior atenção aos casos de violência
em notícias e histórias contadas, porque de repente saltavam aos olhos as imagens
daquilo que tratávamos nos ensaios.
O início do processo
coregráfico causou muita espectativa e deixava-me entusiasmada. Houveram
muitos dias em que conversei longamente com pessoas, especialmente minha mãe,
sobre assuntos relacionados ao conceito e tema do balé, do qual tinha apenas
uma noção. Muitas vezes a coreografia não parecia relacionada ao tema de
violência, uma sequência aleatória, até que o diretor nos mostrava a intenção,
os signos e explicava em partes o conceito. Tudo ia se encaixando, tomando
forma e eu ia entendendo os significados de cada cena criada.
Tivemos então uma de nossas
primeiras tristezas. Por conta de uma cirurgia uma colega não poderia dançar
conosco. É delicado e deixa todo mundo apreensivo. Ninguém tem certeza do que
sente. Quando ensaiamos sem a colega e fazemos ajustes no que já havia sido
construído as coisas parecem tranquilas, sem problemas. Mas todos sente a
falta.
Depois de um tempo comecei a
perceber que estava trabalhando um personagem forte, com personalidade e
objetivo que poderia estar seguindo um líder ou agindo por prazer. Fui
identificando pequenos movimentos que seriam próprios do seu comportamento, da
sua forma de pensar e pequenas expressões que identificavam tais pensamentos. A
partir do momento em que a coreografia era colocada em sequência de cena, a
medida em que o balé passava a ter uma espécie de narrativa, ficava mais fácil
dar maior importância para esses detalhes, pois a coreografia já tinha sido
codificada e absorvida.
Nesse ponto o rítimo das
aulas era acelerado, a rotina já havia mudado e o corpo tornara-se mais
resistente e ágil, respondendo com maior facilidade aos movimentos. Me sentia
mais forte e cada vez mais impulsionada. Percebi uma facilidade de entendimento
que no inicio parecia quase impossível. O corpo e a mente foram se habituando e
se transformando.
E enfim vai chegando a
ansiedade, mesmo com um mês de antecedência o frio na barriga já é insistente e
mexe com o modo como percebo e entendo cada detalhe, inclusive os de produção.
Há a novidade da grama que faz parte do cenário, das luvas, do figurino, da
máscara e do ‘taco’ de ferro. Adaptar-me não foi fácil, porém, incorporou à
minha interpretação o que lhe faltava, o toque final para o personagem.
Na semana de estréia da
temporada a companhia parecia nervosa, sem excessões, mas ansiosa para ver as
estruturas que também acrescentariam uma dificuldade, mais um detalhe a ser
lembrado, nunca havíamos ensaiado com nada parecido e a altura dela era mais um
estranho no palco. Entramos no teatro cedo para só conseguir ensaiar tarde da
noite. Deveríamos nos acostumar portanto com o tamanho do palco reduzido e a
altura das estruturas. Levava tempo para descer e subir nas passarelas e muitos
de nós saímos com roxos nas canelas e arranhados nas mãos. Mas saímos sorrindo.
Depois que subo no palco sinto-me em casa. O cheiro do teatro, as luzes, a
energia, tudo muda, tudo é sempre diferente. Faz uma enorme diferença o apoio
dos colegas, estamos atentos as necessidades de palco e uns aos outros. É
bastante diferente da sala de aula, onde até então cada um preocupava-se com a
sua parte, e pouco tempo para adaptação às novidades. É escuro nas cochias, há
estruturas altas por onde devemos caminhar e correr, máscaras entre outros
acessórios... Fazemos uma passagem de luz para sabermos nos posicionar, onde
nos movimentar. E vai tudo sendo colocado no lugar.
Contudo, estreamos na
quarta-feira um balé que, segundo alguns espectadores, tira o folego e as
palavras das pessoas, deixando a marca prevista pelo coreógrafo. Satisfeitos
voltamos a nos apresentar com o mesmo entusiasmo nos dias seguintes. E mais uma
vez o destino impõe um obstáculo. No sábado, geralmente um dos nossos maiores
públicos, a chuva não deixou que nos apresentássemos, sem luz no teatro não
poderíamos fazer nosso espetáculo. Voltava então para casa com uma sensação
ruim de quem não concluíra seu trabalho. E o corpo não relaxou, não conseguia
aproveitar o tempo para descansar, tive a impressão de que estava fazendo algo
errado. Engraçado porque não era minha culpa... No domingo, então voltava ao
teatro para o último espetáculo da temporada. A emoção era forte e não deixava
espaço para qualquer outro pensamento. O silêncio de concentração e ao mesmo
tempo as risadas das últimas piadas de camarim se misturavam e transformavam
aquele ambiente no melhor, que eu conheço, para a realização da nossa arte.
Depois de um mês de férias
ainda voltamos aos nossos ensaios para participação do Festival de Inverno da
Universidade Federal do Paraná, em Antonina. Com esse espaço de tempo e com a
certeza da realização de um bom trabalho durante a temporada, a companhia
parecia mais segura. Os poucos ajustes que fizemos com relação a tamanho de palco
e a um elenco reduzido novamente, não parecia assustadores ou problemáticos.
Mais uma colega por problemas de saúde não pode nos acompanhar no palco, e mais
uma vez a companhia se sentia estranha com relação a isso. Mas a presença das
colegas durante a viagem e o espetáculo foi tranquilizadora.
Como sempre viajar para
Antonina, litoral do nosso estado, é uma alegria. Somos bem recebidos e temos a
oportunidade de ver o movimento desse festival que já tem 24 anos de ‘carreira’,
onde a Téssera também sempre participou, desde sua primeira edição. Mais uma
chegada ao teatro com alegria, piadas, sorrisos, harmonia e muitos abraços nos
integrantes da companhia que trabalham no festival como parte da equipe de
espetáculos, incluindo nosso chefe, o Pacheco.Fizemos dois espetáculos bem
produzidos e organizados, onde nos adaptamos bem e percebi, envolvemos o
público num trabalho de qualidade.
Mais uma semana depois e
voltamos ao trabalho. Agora estamos focados na produção de um novo espetáculo
que terá como coreógrafa Cristiane Wosniak. O processo é completamente
diferente, não se assemelha em quase nada com o processo do Pacheco. É
interessante participar de coisas tão diferentes, as experiências, mesmo que eu
não queira, ficam se comparando na minha mente. O que um faz que outro não faz,
e porque? Qual o propósito de diferentes abordagens? São perguntas que eu me
faço. E agora mais do que nunca sou uma
observadora. Na semana seguinte a que voltamos de nossos espetáculos em
Antonina, tive a mais incrível notícia da minha vida. Estou grávida! E é com
essa alegria que venho participando do processo do novo balé da Téssera
Companhia de Dança.
Fotografias: Christian Alves



