A Inspiração.
O Orgulho.
Mais um ballet de Rafael Pacheco com o qual eu, como bailarina da Téssera Companhia de Dança da Universidade Federal do Paraná, concluo três anos de identificação e alegria com o trabalho. LAPSES foi desde o início um desafio e uma grande satisfação. Os ensaios me ensinaram que não há pressa quando se trata de arte, quando se trata de dança e especialmente quando se trata de amor pela arte. Aprendo cada vez mais com o palco, que só mostra o quanto somos imperfeitos e também a grandeza de nossa dedicação. Errar e aprender com nossos erros, concertar e não ter vergonha de pedir desculpas. Sinceras desculpas, com o peso da vergonha. O trabalho que envolve muitos profissionais, que exige rigor e controle, comunhão e companheirismo. Esse trabalho que nos é entregue nas mãos como um filho que precisa ser alimentado e educado. Muitas incertezas pesam nos ombros. Será que estou preparada? E o nervosismo, tão comum e acolhido como um amigo, se acentua e acrescenta, em energia, o toque final que me prepara e sustenta. E ainda aprendo cada vez mais com meus colegas que a cada ano mostram a importancia desse trabalho, que a cada temporada se disponibilizam, que se doam e que se entregam em cada espetáculo e cada ensaio. Aprendo a confiar e me entregar junto com eles. Porque eles vão me segurar. Tudo caminha para um "final feliz".Os anjos fazem "tentativas de vôos" e o trabalho torna-se cada vez mais exaustivo e ao mesmo tempo compensador. As dores no corpo, o cansaço mental e corporal, a insônia e os pesadelos só trazem prazer. Me percebia acordada na cama, olhando fixo para um ponto e pensando na sequencias, no que cada movimento representava e cada palavra, em aramaico, grego ou latim, significavam. A presença do maestro Alvaro Nadolny foi muito importante no processo, pelos ensinamentos e por nos ajudar a entender até mesmo o que queríamos transmitir e como transmitir.
A rotina de temporada é tranquila e se intensifica. Conversas nos camarins, risadas aqui e ali, concentração na aula, retocar a maquiagem, pedir pra alguém arrumar o cabelo, ouvir música, comer alguma coisinha, colocar o figurino, sentar no palco e observar as pessoas, a platéia vazia, a cabine de luz no alto, o mestre que nos entrega seu filho (a coreografia, a obra), os "arcanjos", o "lúcifer", fechar a roda, rezar, pedir ajuda pra fechar um zíper do figurino, colocar o capuz, olhar os colegas nos olhos, abraçar, dizer "merda, merda" e ouvir as campainhas que anunciam a aproximação do início de mais um espetáculo. E sentir as borboletas voarem no estomago feito loucas.
Os anjos voaram, os arcanjos voaram. Nós conseguimos, e ainda estamos aprendendo, nos doando, e esperando melhorar, um dia após o outro. Mas a sensação é a melhor possível, de que o trabalho está sendo feito, de que conquistamos o palco, de alegria e satisfação. O suor escorre pelos rostos sorridentes nas coxias. E os agradecimentos aos cumprimentos no saguão ecoam. E que venham os próximos três espetáculos.


