segunda-feira, 19 de março de 2012

Interação não-visual.

Éramos três amigas risonhas dispostas a experimentar mais uma vez o movimento.
A proposta era entrar em contato com o colega através de movimentos que partiriam da coluna e então partir para a locomoção. Porém, tudo deveria acontecer com os olhos fechados para que pudéssemos aprender a reconhecer os colegas, sentir a presença e as sensações provocadas pelo exercício.
Sentada, fechei meus olhos e tentei encontrar minha coluna, senti-la e perceber o que ela me impulsionava a fazer. Senti minhas escápulas queimarem e os braços esquentarem. Quando não aguentei mais sentir a queimação soltei meu braço. Foi como se eu estivesse segurando um músculo, uma força, e a liberasse instantaneamente. Meu antebraço se moveu até as pontas dos dedos. Encontrei logo as mãos de minhas colegas. Do meu lado direito, a mão de minha colega, era macia, muito leve e úmida. Do meu lado esquerdo, a mão de minha outra colega, era áspera um pouco menos leve, mas macia quase da mesma forma, mas ainda diferente.
Começamos a nos movimentar sem que uma coordenasse a outra, mas em sintonia e calmamente, como se estivéssemos conectadas muito mais do que apenas pelo toque das mãos. E nossa movimentação passou a ser uma, como relatou outro colega, que participava da mesma experiência, "a movimentação não era mais minha ou dele, era nossa".
Senti-me tranquila e ao mesmo tempo animada e instigada a continuar me movendo. Passamos a mover outras partes do corpo a partir da coluna e assim como havia acontecido com os braços aconteceu com minhas pernas também. E do nível baixo, em que estávamos sentadas, passamos para o nível médio, nos joelhos, e depois fomos para o nível alto nos colocando de pé. Toda a tarefa se realizava sem que precisássemos abrir nossos olhos e isso chamou minha atenção. Tive vontade de espiar o que estava acontecendo com os outros, mas só então me lembrando de que havia outros, pois a sala parecia deserta apenas habitada por nós três a voz que nos orientava. Fiquei preocupada e me senti até um pouco ridícula porque precisei abrir, minimamente, os olhos para me certificar. Mas depois disso me acalmei novamente e voltei à experiência.
Começamos a nos deslocar, mas não reparei onde estávamos indo, somente percebi que dançávamos, num ritmo que não era o da música, mas um ritmo nosso que não mudava, era tranquilo e passava a sensação de bem estar. De tempos em tempos começamos a nos separar, soltando uma ou outra mão. Nestes momentos eu percebi que havia uma escuridão em meus olhos, que permaneciam fechados, e quando isso acontecia eu tentava reencontrar as mãos de minhas colegas rapidamente. Foi quando a voz nos orientou para que deixássemos nossos parceiros e nos relacionássemos com outros colegas sem abrir os olhos.
Eu sentia as mãos de outros colegas muito mais diferentes que as minhas primeiras parceiras. Corpos mais pesados, mais líder, cores diferentes a cada toque, que não eram as cores de minhas amigas, como se cada um tivesse um padrão para que reconheçamos. Posso dizer com firmeza quem eu encontrei no escuro neste momento. E quando nos foi orientado que tentássemos reencontrar nossos primeiros parceiros fui rápida. Talvez pelo cheiro, pela presença ou pela cor, mas principalmente pelas mãos. Neste momento percebi que eu estava quase rígida, tensa e nervosa, como se tivesse sentindo medo de me relacionar com os outros, porque relaxei e me tranquilizei quando encontrei o toque de minhas amigas.
A sensação de bem estar havia voltado.
Sensações: Tranquilidade
                   Nervosismo
                   Relaxamento